Os corvos vieram até mim e disseram-me que já estava no mês de Julho. Poderia desconfiar dos olhos deles mas eles estavam tão aninhados no meu corpo que segui o trajecto das palavras pronunciadas. Do fundo de mim queria ouvir o cantar do sopro, o afecto suave das penas, os olhos esbugalhados, a mordaz ferida que corre...Apenas ouvi a palavra Julho. O calor tórrido da pronúncia oca do vento. Mas não me podia sentir mal. Fiquei feliz que eles se tivessem dirigido a mim. Porventura poderiam trazer-me uma refeição para alimentar minha sede. Tão bom era ver o bico a escorrer seu líquido para dentro das minhas veias. Estas altas temperatura fazem-me ter alucinações. Não posso estar a pensar no ardente desejo de pegar nos corvos e transformar seu labirinto, em brasas estendidas pelo chão.
Tenho que me fixar noutras projecções do rio. Do beiral do telhado. Das teias tecidas em cruzadas marcadas. Em espessos mergulhos que rasgam as águas. Aquele vazio que fica na água faz-me lembrar as asas dos corvos, com elas estendidas para o ar, para o infinito dos sentidos... E quanto mais fundo se caminha, a sensação de ter um precipício apodera-se dos troncos. Tudo isto parece andar a esvoaçar na minha alma. Soa-me quase à excitação de alterar a forma do lápis. De pô-la na forma mais simples. Apenas como um pedaço de carvão. O invólucro de madeira serve de suporte para ser contorcido, retorcido e finalmente não existir. O perfil alongado das águas e do lápis relembra-me do leito estendido, do manto desdobrado, das arribas que descaem no meu rosto.
Sento-me junto ao rio, nas vastas margens que se prolongam sem orientação, num olhar fugidio. Os corvos parecem postos em círculos no meio de um remoinho. Não posso ter a certeza mas acho que estão colocados de costas virados uns para os outros, na consciência permanente de puderem avistarem a margem. Na sua direcção certa eu não os consigo mover. Sem dúvida que não podem ser movidos. O remoinho com canais a florescer. Tudo existe no pleno sentimento do vago. Os olhos continuam presos no horizonte, as mãos sepultadas na areia, mas a alma foge para onde se sente estendida. Um vento forte numa colina em cruz debruçado. Tenho à vista o mar, aquele sossego de desassossego, de carícias em barras dispostas. Linha descontínua de separação entre meios, recortes que se unem. Toda a paisagem está em sintonia. Até os canais se fundem. Neste momento de sufoco renuncio a ver que não estou nos canais. Já estão preenchidos pelas asas. Em breve aceitarei o inevitável. Se a lua não penetra nas cavernas, apenas a recordação do som do bater das asas tem o sabor dos orifícios fechados. Surge-me de novo o rio à minha frente. Esqueço tudo que está em redor. Os olhos estabilizam-se na ondulação calma. Visão de visões que a mente não consegue alcançar, não são feitas no mar mas sim no rio.
Tenho a leve comoção imoral de saltar para dentro do remoinho, mas prefiro seguir pela manhã do sal acima. A dúvida se o jardim lá permanece apoquenta-me. É que as velhas árvores, gastos pelo tempo, sufocadas pela embriaguez, pelas mentes em copas e espadas cravadas, permitem que a chuva continua a bater na janela. Não posso esquecer que o esquecimento não existe. Retenho-me numa montra de vidros embalsamados. Os vidros trespassem os tecidos, todos húmidos, rasgados...Telas pintadas, ofegado em sinfonia sinceras, na asfixia de ficar preso àquele lugar...Miragem do meu tacto que se sedimentou no pó. Depressa o olhar foge para outro sítio. Vejo contornos a miar, pedras na calçada, no movimento agreste da memória. O que vislumbro é uma pessoa calçada de pombos, a alimentar a fome de Julho. Como este mês é o primeiro depois da metade do ano é necessário abastecer energias, pensei eu. Os primeiros costumam ser sempre aqueles que nos deixam com mais desejo. Sempre...que palavra tão desprovida de pureza. Mas não deixa de ser verdade que existirá sempre progenitores. Começo a desfiar meu rolo de papel. Os pombos permanecem no meu campo visual e os corvos agitam-se como lobos.
Em vidros rodeados eu escapo. Subo as colinas coloridas de perfume. Um recanto de folhas descoladas fixas no chão. Tudo se assemelha a picos de montes. Uns mais airosos, mas com uma harmonia que não me deixam ser seduzido completamente. É como se estivesse a ser espiado por todos os lados, e em meu redor houvesse a aflição de ficar retido num morno colo. Aquele colo das folhas que moldam o chão. Com os desfiladeiros a percorrer cada espessura, só queria que as folhas se espalhassem em seus canais. Mas o Outono ainda está longe e a minha imaginação está retida no presente, ou talvez não. É melhor seguir nesta subida que me leva ao arco-íris. Olho para as casas, são esqueletos de mim. Apesar de vê-las não consigo ter nada. Repouso no banco do jardim, onde está sentado uma senhora de certa idade. Seu corpo obeso coloca-me perante dois dilemas: ou deixo cair a minha cabeça no seu regaço, ou afago-lhe as mãos no meu peito. No corpo dela posso personificar as minhas saliências, o meu espaço percorrido, afinal, as curvas do labirinto. Ela apercebe-se que as minhas carências estão por demais evidentes. Tomo a iniciativa de lhe tocar a mão. Roço-lhe de leve, quero sentir o calor que se liberta dos poros. Saber que as minhas mãos estão a ser também devoradas. Provavelmente uma questão de paciência ou de oportunidade. Reconheço o perfume do transpirar. A mulher firmemente pernoita nos meus olhos, enquanto apenas quero estremecer nas suas mãos, nos seus braços. Sentir que aqueles braços pertencem aos corvos. Entretanto sinto que sou entreaberto, mas não me importo que naquele instante o seja. Sinto que ela o precisa. É como se fosse a água que pode brotar para a sua essência. Sinto que lhe transmito energia que se mistura no seu cansaço. Uma mistura helicoidal de sinfonias. O contacto não se prolonga por muito tempo. Não posso prolongar o prazer por muito tempo. Talvez não tenha esse direito. Quando cada partícula repousa ilimitadamente num esconderijo deixa de brilhar. O brilho não cessa porque há sempre estrelas em buracos negros. Tudo iluminado por pequenos relevos.
Abandono o cálice. Aquele sabor fica-me retido por dentro das minhas veias. Tudo fica sufocado no meu ser, como se fosse um suspiro de alento. Um ânimo contagiante que torna vegetativo o pleno crescer dos troncos. Os passos prosseguem num batuque suave, com uma alternância que contraste com os ombros dançantes. Um barco parece; o movimento lento do terreno. Olho para baixo, busco o caminhar dos pés. A ponderação de saber que em cada pisada que é executada, os destroços se sentem com mais vida. Uma norma que em tudo que se toca floresce com mais força. Perco-me nos passos, no movimento. A locomoção do andar assemelha-se ao comboio do meu amado Douro. Até os carris toleram tais ondulações. Deverá ser dos ombros! Ombros nadadores ou ombros confinados à pureza da beleza. São os contornos que dão a personalidade exterior e o piscar dos sons transpirados, renovados.
Não sei onde vou. Não sei onde estou. Só sei que caí. Ainda me pergunto como caí. Terá sido do meu irregular andar? Ou dos ombros que não encaixaram?...Não parti nada. Apenas uma leve contusão. Devia ter partido o bico do ser, na brandura do estranho olhar. A minha moldura impávida num retrato permanece. Raramente me importo da minha imagem. Se a imagem fosse de licor... No braço melindrado sinto pendurada uma mão que segura o resto do meu corpo. Era a senhora com quem tinha partilhado o assento do éden. Desta vez consegui sentir a profundidade do seu tacto. Abracei-a, abraçou-me; tão forte, tão áspero, um tom de estátuas em simbiose. Havia vida em nós dois; havia um compartilhar de sentimentos; havia o conforto de almas que se encontram. Não pronunciamos nenhuma palavra...para quê?!...Ouvir o aperto do batimento dos corações. A melancolia de estar bem, em braços que também querem receber. Caminhamos para lados diferentes, talvez até para o mesmo lado da fantasia. O aconchego do olhar, requinte da plumagem a esvoaçar por entre neblinas, por entre pedaços de aroma. Sigo em definitivo em busca daquilo que é meu, daquilo que pertence à cor, ao cantar das luzes espalhadas pela colina.
A noite aproxima-se. Clamo pelo vento, pelo som ofegante dos pássaros. Refogo o tempero do desejo de ver a escuridão do meu pensamento. Mas sempre existe num espasmo, o visionamento do arco-íris. Tenho que lá chegar com a alma, para poder dizer bem alto que estou vivo. Impressões das asas dos corvos que deixaram de ser moldados pelo meu tacto. No meio da minha divagação, os sons do cativeiro penetram em mim. Desvio o olhar para uma ruela que tem as janelas colados umas as outras, com a roupa estendida por entre arames, com cheiro de charutos a encantar o ar. Reparo melhor, observo que é um beco sem saída com um bar ao fundo. O local é escuro suficiente para uma lanterna colocada em cima duma porta ser como a lua a ilustrar a paisagem.
Penetro por entre a ruela, abrindo as mãos, perfurando o cheiro da parede, mantendo meus olhos presos à lanterna. Uma guia, uma inspiradora do momento. Cada vez que me aproximo mais, a porta em seminua da lua, cura a rua. Duas portas se abrem, uma com cortinado preto, outro amarelo. No meio de cada um, existe um símbolo de uma piranha a devorar uma mão, em tons de um encarnado vivo. Entro, a sala é pequena. Apenas se vê colocada no centro cadeiras na forma de retalhos de elipse. Tudo está disposto para que o centro das atenções se vira para lá. Nem tudo. As luzes que floreiam a sala estão em redor, nas paredes, que acompanham o contorno da disposição das cadeiras. Iluminações a focarem-se nos focos da elipse como se um jogo de panoramas pudessem expor o regalo dos olhos. Pensei em dois corvos, nos dois focos. Puro engano. São os olhos do remoinho que vi no rio. Os canais a prolongarem-se até as cadeiras. Se os corvos pudessem existir naquela situação só poderiam ser as cadeiras. Quantas cadeiras haviam na sala? Não sei!!!. Também não estava disposto para ver quantos pedaços de rasgos tinha a felicidade. Um trevo de quatro folhas para retocar a sorte. Plantas a sugarem a meiguice da água esmorecida pelos pedaços. Não é o recorte da palma da mão que faz renascer o número ideal, mas sim, as mãos a serem dilaceradas pelo rápido ataque da piranha. Aproximo-me dum homem que se entretêm a colocar discos de vinil nas paredes. Dispõe-os de forma sequencial, distantes de tal forma que cria um esqueleto articulado. Recolho meu olhar na careca escorrida dos cabelos. Vertigem do resvalar que perturba o caminhar. Resvalo ainda mais para uma chapa que tem as seguintes palavras inscritas:
Tenho que me fixar noutras projecções do rio. Do beiral do telhado. Das teias tecidas em cruzadas marcadas. Em espessos mergulhos que rasgam as águas. Aquele vazio que fica na água faz-me lembrar as asas dos corvos, com elas estendidas para o ar, para o infinito dos sentidos... E quanto mais fundo se caminha, a sensação de ter um precipício apodera-se dos troncos. Tudo isto parece andar a esvoaçar na minha alma. Soa-me quase à excitação de alterar a forma do lápis. De pô-la na forma mais simples. Apenas como um pedaço de carvão. O invólucro de madeira serve de suporte para ser contorcido, retorcido e finalmente não existir. O perfil alongado das águas e do lápis relembra-me do leito estendido, do manto desdobrado, das arribas que descaem no meu rosto.
Sento-me junto ao rio, nas vastas margens que se prolongam sem orientação, num olhar fugidio. Os corvos parecem postos em círculos no meio de um remoinho. Não posso ter a certeza mas acho que estão colocados de costas virados uns para os outros, na consciência permanente de puderem avistarem a margem. Na sua direcção certa eu não os consigo mover. Sem dúvida que não podem ser movidos. O remoinho com canais a florescer. Tudo existe no pleno sentimento do vago. Os olhos continuam presos no horizonte, as mãos sepultadas na areia, mas a alma foge para onde se sente estendida. Um vento forte numa colina em cruz debruçado. Tenho à vista o mar, aquele sossego de desassossego, de carícias em barras dispostas. Linha descontínua de separação entre meios, recortes que se unem. Toda a paisagem está em sintonia. Até os canais se fundem. Neste momento de sufoco renuncio a ver que não estou nos canais. Já estão preenchidos pelas asas. Em breve aceitarei o inevitável. Se a lua não penetra nas cavernas, apenas a recordação do som do bater das asas tem o sabor dos orifícios fechados. Surge-me de novo o rio à minha frente. Esqueço tudo que está em redor. Os olhos estabilizam-se na ondulação calma. Visão de visões que a mente não consegue alcançar, não são feitas no mar mas sim no rio.
Tenho a leve comoção imoral de saltar para dentro do remoinho, mas prefiro seguir pela manhã do sal acima. A dúvida se o jardim lá permanece apoquenta-me. É que as velhas árvores, gastos pelo tempo, sufocadas pela embriaguez, pelas mentes em copas e espadas cravadas, permitem que a chuva continua a bater na janela. Não posso esquecer que o esquecimento não existe. Retenho-me numa montra de vidros embalsamados. Os vidros trespassem os tecidos, todos húmidos, rasgados...Telas pintadas, ofegado em sinfonia sinceras, na asfixia de ficar preso àquele lugar...Miragem do meu tacto que se sedimentou no pó. Depressa o olhar foge para outro sítio. Vejo contornos a miar, pedras na calçada, no movimento agreste da memória. O que vislumbro é uma pessoa calçada de pombos, a alimentar a fome de Julho. Como este mês é o primeiro depois da metade do ano é necessário abastecer energias, pensei eu. Os primeiros costumam ser sempre aqueles que nos deixam com mais desejo. Sempre...que palavra tão desprovida de pureza. Mas não deixa de ser verdade que existirá sempre progenitores. Começo a desfiar meu rolo de papel. Os pombos permanecem no meu campo visual e os corvos agitam-se como lobos.
Em vidros rodeados eu escapo. Subo as colinas coloridas de perfume. Um recanto de folhas descoladas fixas no chão. Tudo se assemelha a picos de montes. Uns mais airosos, mas com uma harmonia que não me deixam ser seduzido completamente. É como se estivesse a ser espiado por todos os lados, e em meu redor houvesse a aflição de ficar retido num morno colo. Aquele colo das folhas que moldam o chão. Com os desfiladeiros a percorrer cada espessura, só queria que as folhas se espalhassem em seus canais. Mas o Outono ainda está longe e a minha imaginação está retida no presente, ou talvez não. É melhor seguir nesta subida que me leva ao arco-íris. Olho para as casas, são esqueletos de mim. Apesar de vê-las não consigo ter nada. Repouso no banco do jardim, onde está sentado uma senhora de certa idade. Seu corpo obeso coloca-me perante dois dilemas: ou deixo cair a minha cabeça no seu regaço, ou afago-lhe as mãos no meu peito. No corpo dela posso personificar as minhas saliências, o meu espaço percorrido, afinal, as curvas do labirinto. Ela apercebe-se que as minhas carências estão por demais evidentes. Tomo a iniciativa de lhe tocar a mão. Roço-lhe de leve, quero sentir o calor que se liberta dos poros. Saber que as minhas mãos estão a ser também devoradas. Provavelmente uma questão de paciência ou de oportunidade. Reconheço o perfume do transpirar. A mulher firmemente pernoita nos meus olhos, enquanto apenas quero estremecer nas suas mãos, nos seus braços. Sentir que aqueles braços pertencem aos corvos. Entretanto sinto que sou entreaberto, mas não me importo que naquele instante o seja. Sinto que ela o precisa. É como se fosse a água que pode brotar para a sua essência. Sinto que lhe transmito energia que se mistura no seu cansaço. Uma mistura helicoidal de sinfonias. O contacto não se prolonga por muito tempo. Não posso prolongar o prazer por muito tempo. Talvez não tenha esse direito. Quando cada partícula repousa ilimitadamente num esconderijo deixa de brilhar. O brilho não cessa porque há sempre estrelas em buracos negros. Tudo iluminado por pequenos relevos.
Abandono o cálice. Aquele sabor fica-me retido por dentro das minhas veias. Tudo fica sufocado no meu ser, como se fosse um suspiro de alento. Um ânimo contagiante que torna vegetativo o pleno crescer dos troncos. Os passos prosseguem num batuque suave, com uma alternância que contraste com os ombros dançantes. Um barco parece; o movimento lento do terreno. Olho para baixo, busco o caminhar dos pés. A ponderação de saber que em cada pisada que é executada, os destroços se sentem com mais vida. Uma norma que em tudo que se toca floresce com mais força. Perco-me nos passos, no movimento. A locomoção do andar assemelha-se ao comboio do meu amado Douro. Até os carris toleram tais ondulações. Deverá ser dos ombros! Ombros nadadores ou ombros confinados à pureza da beleza. São os contornos que dão a personalidade exterior e o piscar dos sons transpirados, renovados.
Não sei onde vou. Não sei onde estou. Só sei que caí. Ainda me pergunto como caí. Terá sido do meu irregular andar? Ou dos ombros que não encaixaram?...Não parti nada. Apenas uma leve contusão. Devia ter partido o bico do ser, na brandura do estranho olhar. A minha moldura impávida num retrato permanece. Raramente me importo da minha imagem. Se a imagem fosse de licor... No braço melindrado sinto pendurada uma mão que segura o resto do meu corpo. Era a senhora com quem tinha partilhado o assento do éden. Desta vez consegui sentir a profundidade do seu tacto. Abracei-a, abraçou-me; tão forte, tão áspero, um tom de estátuas em simbiose. Havia vida em nós dois; havia um compartilhar de sentimentos; havia o conforto de almas que se encontram. Não pronunciamos nenhuma palavra...para quê?!...Ouvir o aperto do batimento dos corações. A melancolia de estar bem, em braços que também querem receber. Caminhamos para lados diferentes, talvez até para o mesmo lado da fantasia. O aconchego do olhar, requinte da plumagem a esvoaçar por entre neblinas, por entre pedaços de aroma. Sigo em definitivo em busca daquilo que é meu, daquilo que pertence à cor, ao cantar das luzes espalhadas pela colina.
A noite aproxima-se. Clamo pelo vento, pelo som ofegante dos pássaros. Refogo o tempero do desejo de ver a escuridão do meu pensamento. Mas sempre existe num espasmo, o visionamento do arco-íris. Tenho que lá chegar com a alma, para poder dizer bem alto que estou vivo. Impressões das asas dos corvos que deixaram de ser moldados pelo meu tacto. No meio da minha divagação, os sons do cativeiro penetram em mim. Desvio o olhar para uma ruela que tem as janelas colados umas as outras, com a roupa estendida por entre arames, com cheiro de charutos a encantar o ar. Reparo melhor, observo que é um beco sem saída com um bar ao fundo. O local é escuro suficiente para uma lanterna colocada em cima duma porta ser como a lua a ilustrar a paisagem.
Penetro por entre a ruela, abrindo as mãos, perfurando o cheiro da parede, mantendo meus olhos presos à lanterna. Uma guia, uma inspiradora do momento. Cada vez que me aproximo mais, a porta em seminua da lua, cura a rua. Duas portas se abrem, uma com cortinado preto, outro amarelo. No meio de cada um, existe um símbolo de uma piranha a devorar uma mão, em tons de um encarnado vivo. Entro, a sala é pequena. Apenas se vê colocada no centro cadeiras na forma de retalhos de elipse. Tudo está disposto para que o centro das atenções se vira para lá. Nem tudo. As luzes que floreiam a sala estão em redor, nas paredes, que acompanham o contorno da disposição das cadeiras. Iluminações a focarem-se nos focos da elipse como se um jogo de panoramas pudessem expor o regalo dos olhos. Pensei em dois corvos, nos dois focos. Puro engano. São os olhos do remoinho que vi no rio. Os canais a prolongarem-se até as cadeiras. Se os corvos pudessem existir naquela situação só poderiam ser as cadeiras. Quantas cadeiras haviam na sala? Não sei!!!. Também não estava disposto para ver quantos pedaços de rasgos tinha a felicidade. Um trevo de quatro folhas para retocar a sorte. Plantas a sugarem a meiguice da água esmorecida pelos pedaços. Não é o recorte da palma da mão que faz renascer o número ideal, mas sim, as mãos a serem dilaceradas pelo rápido ataque da piranha. Aproximo-me dum homem que se entretêm a colocar discos de vinil nas paredes. Dispõe-os de forma sequencial, distantes de tal forma que cria um esqueleto articulado. Recolho meu olhar na careca escorrida dos cabelos. Vertigem do resvalar que perturba o caminhar. Resvalo ainda mais para uma chapa que tem as seguintes palavras inscritas:
“Le cheval blanc dans la nuit noir,
Rejoindre le plaisir d´être livre,
C´est ma fout,
J´ai peur.”
Fico perturbado com as palavras. Ecoam dentro de mim como trovões, como o grão de areia que se estendeu num espinho retido. Poderosa memória. As minhas ramificações despedaçam-se na sala. Só sinto umas mãos a segurar e a levar o meu corpo num rastejar agreste. Acordo no centro da sala, rodeada pelas cadeiras, em cima de uma mesa, com uma luz dirigida para o meu sexo e outra para a minha testa. O rosto está a arder, num forno que provoca em mim um vácuo. Inflamo em êxtase, estimulado pelo flagelo de satisfazer o desejo. A harmonia enche o prazer dos focos. Tenho o calor ardente comprimido.
Deixo os olhos completamente abertos. Os calores que despedacem meu corpo são apenas mera ilusão. O desejo não passa de uma respiração prolongada, uma bofetada. O conjunto agradável de sons não faz sentido. Aprecio o momento de estar deitado na mesa. Preciso de observar o tecto. Contemplo aquele espaço liso de orvalho, branco de pureza que acalma meu ser. Sento-me na mesa, vejo que a sala se encontra vazia de pessoas. Os vinis, em gotas dispersas pela sala, em cada uma inscrita uma pequena frase ou unicamente uma palavra, transbordam nos meus olhos. Extravaso a melodia das músicas contidas nas invisíveis curvas. É verdade que não posso ouvi-las, mas de certeza que as posso interiorizar no meu olhar. Há algumas frases que captam a minha mente:
· Acesso tormento na fuga saliente
· Águas turvas
· Adoecer num líquido incolor
· Manto de retalhos
· Túmulo escondido
Havia outras frases mas a minha mente está cansada. Cansado de ler os infinitos punhais que alimentam regaços da minha vida. Um olhar de cólera na penumbra de círculos, vitória de fragmentos, cores humedecidas, caixas de nevoeiro... Enfim os círculos dos vinis na roda giratória, que impulsiona o movimento e as palavras, o seu motor. Capacidade de ser tudo o que queira naquele momento de silêncio e de contemplação. Mais leve estou, a serenidade voltou ao meu ser.
Consigo ouvir uns passos a aproximarem-se. Parecia até os meus neurónios a martelarem, um som forte com cadência a subir. A expressão nos meus olhos não se altera. Tudo está contido na qualidade do andamento. Não desvio o meu pensamento de tal afecto. Quero sentir, para esquecer daquelas palavras que me enlouqueceram minha alma. Aquele toque francês de pronúncia incoerente para o local. O homem aproxima-se de mim envolto num lençol branco, purificado de esmalte. Trazia na sua mão esquerda um triângulo de um metal que desconheço, pintado de cor negro. Em cada ponta encontrava-se uma esfera que se movia constantemente; deveria ser devido a um campo magnético. Notava-se uma onda de forças que se prolongava em volta da mão. Todo a energia da sala ficou no objecto. Do branco lençol escorria água que desaguava em cada esfera, caindo em gotas pelo ar até bater forte no chão. Um estrondo que fazia os meus tímpanos explodir. Campainhas alternadas de melodias poderosas e sufocantes.
Em cada gota que brotava via-se o tempo alternar. A luz a incidir, a trespassa-las numa plumagem a levitar no meio. Há sempre aquele fenómeno de observar para além do canto do olho. Aquele horizonte que nos cega e nos faz pensar que somos meros pedaços do pensamento. São mesmos arrepios de prazer. Gotas de corvos. As gotas passaram para fios espessos, como cordas dum violino. Desejava tocar, produzir um som, interromper a descida abrupta da água. Pegar nas flexíveis lâminas de aço e rasgar meus dedos, até ouvir o desprendimento da vida. A água deixa de bater no chão, deixa-se de ouvir o estrondo. Calmamente aproxima-se do meu corpo. Deposito meu corpo no alongamento da madeira sobre a mesa. Ele faz escorrer pelo meu peito quente, a ferver. Ouve-se o fumegar da água. No meio disto tudo tenho uma sensação estranha. Cada um dos lençóis de água não tem o mesmo sabor. Uma mistura estranha, tanto em temperatura, como em intensidade. Não consigo distingui-las com precisão; só sei as sensações que me transmitem; uma de certa pureza, raiva, ódio, suavidade, desinteresse, extravagância... Mas todas tem uma coisa em comum: tem o poder de caminharem para o vazio, para dentro de mim, passarem-me de um lado a outro, sem perguntarem, nem responder, se tem ou não, permissão para abrirem tal tesouro. Entram e varrem o que não é delas. Olham e não entendem o que não vos pertence. É como se quisessem saquear o trago da sensibilidade. Gotas de corvos que salpicam minha alma e moldaram o espectro do destino. Fico com a água retida no meu umbigo, enquanto vejo o homem esvanecer nos seus mantos puros por entre cortinas ao fundo da sala. Sugo o elixir como se fosse a seiva que pudesse abastecer e reanimar meu espírito. O líquido percorre o interior do meu ser, a explorar cada semente do caule, das folhas, das raízes... Não chega a ir a um lugar, dificilmente atingiria tal sedimento. Levanto-me energético, numa força desmesurada. Saí dali sem ver mais nada, nem os vinis me prendem o olhar. Apenas uma coisa me passa pela mente: a piranha. Seguro o cortinado da entrada e retalho a piranha que devora a mão. Talvez a mão precisa de ser dividida em pequenas porções. É obvio que eu não tenho poder de fazer de uma mão várias identidades pessoais. Vários dedos, se eu fosse uma piranha...Deixo este tecido no meu bolso. Caminho, fujo, pela ruela que me trouxe a este desassossego. Nem o odor do tabaco passa pelas minhas narinas. Só o líquido está encerrado dentro de mim, só resta afastar-me daquele lugar. Reter as emoções na sua essência.
A noite já vai longa. Toda a escuridão contida no mar estelar. As luzes da cidade estão apagadas, parece que tudo veio para ser meu. Continuo a correr sem destino, com o corpo a transpirar de desejos, de olhar para uma janela. Sei que a janela que ambiciono se encontrará retida entre espinhos, entre barras invisíveis, entre muralhas de gelo que só se fundem com um toque de fada. Avisto ao longe um recinto que se encontre no meio de um gradeamento de madeira, rodeado de árvores altas, traços ocos. Aproximo-me da minha prisão. Meu ser fica surpreso mas de tão cansado que está não repara que a janela que procuro se encontra presente naquelas masmorras. Sem dúvida que está fora. Como poderia estar dentro a janela da minha salvação, das cortinas verdes?...Caio redondo num dos cantos da prisão. Sinto-me esgotado. A força de fechar os olhos junto as raízes da vida é mais forte que o meu desejo. Tenho que fazer uma coisa. Não posso adormecer sem o fazer. Não posso. Tenho que o fazer. Armo meus cabelos em torno de um tronco, enlaço minhas veias no embrião, prendo o caminho na armadilha. Tudo isto para quê? – pergunto-me eu. Somente para acordar virado para a janela. Tanto esforço para provavelmente acordar virado para alegoria. Moldar o quadro de olhos fechados, do menosprezo da cegueira.
Adormecerei aqui bem – penso eu. Sempre faz sentido dormir com as estrelas como manto, o chão como fogo e as árvores a acariciarem meu hálito. Aquele hálito de ventanias que sopram mas cansa logo, por não terem quem os alimenta. Uma reserva interior poderá levar a suster o último sopro do dragão. Não deixa de ser válido que o alimento provém do âmago. Tudo se cerra nos cadeados ferrugentos, num corpo em que os rasgos do tempo fazem-se ouvir.
Pareço uma múmia embrulhada nos pelos sedentos da menina que fecha as minhas pálpebras. Uma aparição; talvez seja isso. Vindo do nada sinto as mãos pequenas, feições peludas, parecendo um homem. Umas mãos sem forma delimitada, assemelhando-se a escamas de baleia. Escamas ásperas de retratos transparentes, o oco que vinha dentro dela. Nem o olhar escapava. Sempre se diz que o olhar não engana; o dela revelava uma árvore velha, a apodrecer em troncos despidos. O sorriso algo medroso queria tentar dizer-me que o toque era sincero. Mas não, que ingenuidade do meu ser poderia pensar que aquelas escamas peludas, sedentas de fragilidade, poderiam arrebatar minha alma e possui-la como se dum animal se tratasse. Uma fugitiva daquele momento austero. Mas ela continuava a segurara-me a mão com firmeza, não a largando, colando cada parte do seu corpo imundo a minha pele. De pé ao meu ouvido segreda palavras desconexas, desprovidas de qualquer significado. Dizendo que as escamas que ela tinha eram feitas do mais puro cordel do mar. Tentava persuadir-me com o seu penteado solto, cabeça arredonda de futilidades. Era tudo irracional. Quando se sente que a primeira carícia é como o vento que não chega a bater na face, não se pode inspirar o desejo de continuar a estar atado à árvore. O toque insistente percorria as minhas ossadas. Fui um erro meu por os meus elos à volta da raiz do tronco. São como os vampiros que querem sugar. Ela não se afigura a tal divindade. Os vampiros sabem como agir, ela não. Apenas tem a configuração de uma palmilha deserta de ideias, numa banalidade que nem o canto da sereia consegue tornear o hálito fedorento. Continua a mirar-me com olhos senis. De frente, de trás, de lado, ou de outra qualquer postura, tudo tem a mesma risada total. Não percebo porque aquela menina vestida de anjo veio até mim. Vestida de anjo com roupas sem variedade de tonalidades, sem harmonia. Uma máscara na cara para tentar tapar a podridão do calor da sua decomposição.
Nem as mãos delas me atraem. Eu gosto de mãos. Sempre gostei. São as mãos que executam as nossas tarefas, são elas que dão beleza ao nosso coração, são elas que fazem de nós o que somos. Observar um delineamento de mãos suaves, que sabem penetrar em mim com doçura, que tocam como penas. Uns arbustos que crescem para o alto e se aninham nas perfurações salientes do inferno que me consome. Feitas para encaixar, feitas para escorregar. A isso chamo mãos.
Vinha acompanhada de outra pessoa. Pelo aspecto tinha ar de ser sua mãe. Pedi licença para lhe tocar nas mãos para poder ver a diferença, mas não precisava do fazer. Via-se de imediato que o antigo tem mais sapiência. Insisti para confirmar o óbvio. Mel a rebolar por entre meus dedos, até as rugas eram divinas. As veias de alto e baixo figuravam, davam um ar de juvenil. Ao contrário das escamas da filha que apenas mostrava que precisava de saber o que queria (acho que nunca saberá). Tocar por tocar pertence aos levianos. Aposto que a mãe da menina concordaria comigo. Sinto isso.
Elas penetram o olhar uma na outra numa contradição extrema. Existe pureza naquele confronto. Querem-me possuir com a uma brandura a derreter. Nota-se plenamente que há algo em comum além dos laços sanguíneos. Os traços obesos obedecem a um rigor diferente. Foram molestadas nos rasgos da insanidade. O corredor de longas facas afiadas, na devastação de momentos, nas formas perdidas e que jamais se construirão. Queimam-se com a pele, apesar da menina pedir misericórdia pelos flagelos que provocou. Ou será a mãe? Que tipo de flagelos?...Interrogo a mãe na mão que se encontra pousada no meu cálice:
- Porque amas o teu marido?
A resposta vem em salpicos de lágrimas que perfuram minha pele. Provavelmente será devido ao odor que ainda permanece da filha. Sente-se ao longe que não foram feitas para serem uma da outra. Tanto menosprezo, tanto ódio, tanta raiva, tanto vácuo...relembro-me duma frase que li: “Quem mata o tempo não é assassino: é suicida.” Talvez não se aplique nesta situação mas é claro que o tempo não existe para nenhuma delas. Tudo se transforma em amor se houver na profundidade do abismo uma agitação, uma paixão de reencontrar o caminho, uma vontade de viver... A solidão existe naqueles rostos e a procura do básico passou a ser o essencial. Um elixir sem o verdadeiro sentido da plumagem dos corvos.
A noite vai longa e nós três no meio daquela prisão torna-se fustigante. Penso que será melhor deixar aquelas duas almas na sua deriva, quando de repente, uma voz vinda do fundo, junto da janela de cortinas verdes fura a monotonia. Uma voz de homem, algo desunida nos seus vocábulos, aproxima-se da sensaboria. Dos poucos neurónios que ainda tenho, penso: cara pálida como um quadro codificado de notas. Aquela personagem lavra os caminhos dos rostos desconhecidos. Um pseudo. Eu chamo pseudo às pessoas que estão descontextualizadas do seu ambiente natural. São meros pescadores, cujo único factor que pode interferir é de usar uma cana de pesca com um comprimento razoável para num cartório se registar como caçador de vara curta. Torna-se difícil de ver as diferenças entre um pescador e um caçador. Se calhar deve ser da forma pouca astuta que tocam de leve o seu objecto de ostentação.
Ele chega lá e começa a sentir que o seu território está em perigo. Sente-se assustado. Pressinto que existe um enjaulamento por parte da menina. Acabo por não perceber quem é o caçador, nem o caçado. Também não me importa; só sei que aquele mar morto está demasiado monótono. A mãe aconchega os restos daquelas duas almas depenadas. De um momento para outro, eles largam bruscamente o colo de quem por carinho, numa meiguice terna os foram buscar e libertam-se da prisão fugindo daí, escoam pela colina abaixo até ao rio. Sozinha ela comigo fica. Abraço-a, sinto-a como da mulher do jardim que encontrei antes de ir para o bar. A mulher contorce-se em mim como de um filho se tratasse. Sinto-a afogar-se pelos salpicos da pergunta que lhe fiz. Apanho cada lágrima que lhe corre pelas rugas abaixo, seguro cada uma delas como de uma pérola fosse.
Num corredor de fugas deixo-me levar. Lavado em banho de emoções. Sou um recluso do pensamento, de sentimentos; penso nos voos, penso nas lágrimas, penso que existo para ver as fissuras dos desmembramentos. Verdade seja dita, o aconchego daquele corpo faz-me lembrar que as águas são puras quando brotam de fontes imaculadas. Meus seios transbordam, meu corpo inunda-se de prazer, minha alma enche-se da vastidão de rios, como se tudo isso fizesse com que a vida tenha sentido. Talvez até tenha. Talvez. Um sopro vazio de escuridão, um sopro sedutor de mulher...A vastidão daqueles membros numa ternura cativante, num ombro a ferver, num gelo rasgado. As linhas de fogo que a lavram faz-me reflectir que todos nascemos de alguém, damo-nos a alguém, por isso cada gota de orvalho é escorrida com um sabor diferente. Da mãe natureza desagua a esperança, um leite adocicado de virtudes.
A manhã acordou e com tantas coisas que a minha pele saboreou, nem tive oportunidade de descansar as pálpebras. Fiquei outra vez sozinho a olhar o amanhecer. Um som forte percorre meu vento interior numa malga de recordações. Um esvoaçar de torrentes, em cada ímpeto, em assaltos infernais. Gira na roda viva das árvores, que enlouquecem, com a energia que mora nas grutas alicerçadas pelos recalcamentos. O meu ser passeia nesta prisão onde não pára de vasculhar os contornos das peugadas. Sempre a surpresa, em cada canto, mesmo nas masmorras do recanto. Avisto uma fonte num escaninho daquela penumbra. Encontra-se no local fugidio dos olhos, mas não dos ouvidos. O som prega-se num fragmento de mel dos meus lábios. Estranhar o paladar que se entranha pela boca adentro sem ter a oportunidade de saborear com a gema da retina. Vertigem do fascínio de olhar pelas folhas que cobrem a fonte. Aproximo-me da mistura de folhas secas e verdes que se confundem num cruzamento formoso. Abro o celeiro que apenas os ouvidos tinham o prazer de se maravilharem. Ela ainda se encontra um bocado distante das folhas que acabei de separar com os dedos. Ao fundo num pequeno declive a fonte brota a água da juventude. À volta, nos contornos, está rodeado de pedras lisas, umas saídas em relação a outras a formar um murro. Cujo a configuração se assemelha a uma hipérbole, com seu centro na fonte. Trilho a distância, rasgo a vegetação num sufoco rude. A minha paciência está dilacerada, quero lá chegar rapidamente. No meio do cálice onde uma fenda regula as veias, ergue-se duas mãos juntas, entrelaçadas. Não se chegam a tocar mas envolvem-se numa sedução poderosa. A água que ouvia penetra as mãos vindas de uma máscara, duma escultura dum homem de barbas. Ainda pensei à primeira vista que ela saia da boca mas não. Saia do centro da testa. Os lábios mal se viam, eram demasiados finos. Sua boca semiaberta fez-me lembrar um homem em que lhe disseram as seguintes palavras: ” Tu acende-lo e um dia ele te apagará”. Palavras sábias que não se esquecem. Se alguma vez for possível esquecer o relevo da sabedoria os homens deixam de existir. Avizinho-me da escultura de mãos, meto-me dentro do cálice, as enguias fazem amor, sustenho meus lábios entre eles para derramar o mel. Minha língua suavemente passa pelo meio dos dedos da fria rocha. Cola forte, corta a separação da pele, acolho a carícia. Num abraço forte de mãos junto as minhas...
Ouço o chamar dos corvos no meio da minha pele. A água penetra com ardor, sufocando pedaços da eternidade. No intrometer da rocha as silhuetas do tempo vagueiam em contornos de sossego. Tudo com a exaltação contida do refúgio. Continuo a tocar em maresia a imensidão das mãos, sem aperceber que consigo com a minha alma uma grandeza maior que um momento de calor da folha a cair pelos ombros abaixo. Deixo as mãos imóveis escorregar pelo meu peito hirto, sedoso de perfume da aragem, cálido do hálito do homem de barbas que me olha com ar de sedução. Sinto o gemer da natureza, sinto os poros a molharem-se de mel, sinto a morte ganhar vida, sinto o sanguíneo desejo violento de explodir...sinto apenas. Coloco minha perna na tranquilidade da abertura das mãos, roço-o suavemente em melodias de ângulos salientes. Deixo meu corpo cair, para meus longos cabelos descobrirem a transposição da doçura do quebrar, de cada fragmento enevoar as ligações do sagrado. Brando sacrifício, refogo o tempero do prolongamento do meu eco. É a repercussão da minha imagem espelhada na ideia de outrora que tudo faz parte do mesmo ser. Cada pedaço de mim naquela água, naquelas mãos, naquela ansiedade de ser possuído, fica ofuscado a retenção momentânea. Faço amor com a natureza numa pura movimentação de sons rítmicos. Os gemidos voam por dentro dos troncos, escapam-se na plumagem das folhas, as raízes ganham forças para se revoltarem ao seu aprisionamento, as barbas pecam no restolho da água, a voz delicada dos pássaros aconchega as rochas, tudo em volta acciona o contínuo tocar do violino.
Falta qualquer coisa para este momento ser perfeito. Porventura mais que uma mas nesta migalha de tempo só essa basta. Não queria que fosse de manhã, fosse de noite, noite de lua cheia. Sou uma besta, um arpão encravado em mim poderia pensar que poderia ter isso, mas eu não. O manto frio da leveza picante do tornear do horizonte leva-me a cobiçar, o meigo inferno, os anjos prolongados no ventre, a lua a transpirar na concavidade do destino...hum!!! Fecho os olhos, quero sentir essa sensação por dentro das minhas veias, a porção do tempo que falta para cobrir o véu disfarçado. Olhos muito envidraçados, partidos, cortados, encontram-se em voos. Morrer o medo calcado na frincha, como a gruta sem mão tacteasse os perfis nus. A paciência que embirra na calma da levitação, no menosprezo do culto de sorrir em solidão. Vejo a tela a escorrer pedras de sal, enlameado, tangente aos pólos do círculo transparente. Transpiro no lado interior de mim, numa mistura de líquidos que se consomem, que devoro a lua que se encontra no meu pensamento. Numa brisa breve as folhas que sentia cair pelos ombros, juntam-se em meu redor, cobrem o fragmento de mim. Sinto folhas secas que esbatem, que chilreiam nas suas nervuras transversalmente aos meus braços. São sedimentos de matéria na pureza de encontros: a lua, as folhas, a água, as mãos...Uma infinidade de sensações na fúnebre construção da ruína. Até as pedras desalinhadas moldam trajectos tortuosos.
Retiro minha roupa molhada, as folhas que me cobriam deixam-se espalhar pelo ar, pela água. Até algumas são levadas pelo vento para fora do meu domínio. Deixo-me cair junto a parede do cálice e sinto o demónio feito em asas de cordão, enrolado num toque melindrado da espuma azul do céu. Fico nu no relaxante paladar daquele lugar. Não pertenço a água, nunca pertencerei. Sou fogo que arde sem destino, sem chama, com as mãos feitas em sangue de olvidar a arma do cronómetro da vida. Retenho-me bruscamente no calor interior, olhando para longe, olhando para a lua de prata, olhando para os corvos que esquecidos se encontram presentes. O aroma do mel, de carne espalmada, de olhares que buscam as virtudes, da perfeição da purificação, do sangue azul, de poemas retidos na memória, de tudo o que faz manter firme o destino, continuarei deitado...
Passam os dias por mim, no meio destas colinas, nas formas saliente de pedras, em cima do pedestal...Caminho sem fim, para fora, para dentro dum espaço que possa vislumbrar cada silhueta do ninho dos corvos. Saio a pé pelo meu próprio esforço, a moer cada trilho por debaixo de pesado sons. Sons a martelarem a melodia, num compasso, numa paixão de lágrimas, percorro sem fim à vista. Sinto cada vez mais longe o meu ser, pelo menos fisicamente. São túmulos à esquerda, sempre à esquerda, à esquerda de todos os parâmetros visíveis. Túmulos de leveza, das folhas dispersas, de curtas trajectórias, de longos desvios, de margens que olham com admiração por tanto carinho, caminham. Já derramado de tanto caminhar fico estagnado num vale. De um lado observo os verdejantes ramos de pinhos com pingos de lírios roxos, do outro lado areia. Areia tão fina que banho os meus pés nesse sufoco. Não posso escolher os lírios, não me pertencem. Há flores que foram feitas nos aromas de Deuses, nas linhas curvas de fios escassos, que não se podem tocar pela fragilidade externa que demonstram. Açúcar de pedaços entre a pele que aninham com prazer. Dá para pensar neste sossego todo, nesta mistura de cores. Afinal tenho que regressar. Recuperar energia, ou ir buscar outro tipo de energia, repousar a alma e concentrar a reflexão, só me vai fazer bem.
O tempo já passou, o tempo passa, a areia cairá e o solo sairá...
Rejoindre le plaisir d´être livre,
C´est ma fout,
J´ai peur.”
Fico perturbado com as palavras. Ecoam dentro de mim como trovões, como o grão de areia que se estendeu num espinho retido. Poderosa memória. As minhas ramificações despedaçam-se na sala. Só sinto umas mãos a segurar e a levar o meu corpo num rastejar agreste. Acordo no centro da sala, rodeada pelas cadeiras, em cima de uma mesa, com uma luz dirigida para o meu sexo e outra para a minha testa. O rosto está a arder, num forno que provoca em mim um vácuo. Inflamo em êxtase, estimulado pelo flagelo de satisfazer o desejo. A harmonia enche o prazer dos focos. Tenho o calor ardente comprimido.
Deixo os olhos completamente abertos. Os calores que despedacem meu corpo são apenas mera ilusão. O desejo não passa de uma respiração prolongada, uma bofetada. O conjunto agradável de sons não faz sentido. Aprecio o momento de estar deitado na mesa. Preciso de observar o tecto. Contemplo aquele espaço liso de orvalho, branco de pureza que acalma meu ser. Sento-me na mesa, vejo que a sala se encontra vazia de pessoas. Os vinis, em gotas dispersas pela sala, em cada uma inscrita uma pequena frase ou unicamente uma palavra, transbordam nos meus olhos. Extravaso a melodia das músicas contidas nas invisíveis curvas. É verdade que não posso ouvi-las, mas de certeza que as posso interiorizar no meu olhar. Há algumas frases que captam a minha mente:
· Acesso tormento na fuga saliente
· Águas turvas
· Adoecer num líquido incolor
· Manto de retalhos
· Túmulo escondido
Havia outras frases mas a minha mente está cansada. Cansado de ler os infinitos punhais que alimentam regaços da minha vida. Um olhar de cólera na penumbra de círculos, vitória de fragmentos, cores humedecidas, caixas de nevoeiro... Enfim os círculos dos vinis na roda giratória, que impulsiona o movimento e as palavras, o seu motor. Capacidade de ser tudo o que queira naquele momento de silêncio e de contemplação. Mais leve estou, a serenidade voltou ao meu ser.
Consigo ouvir uns passos a aproximarem-se. Parecia até os meus neurónios a martelarem, um som forte com cadência a subir. A expressão nos meus olhos não se altera. Tudo está contido na qualidade do andamento. Não desvio o meu pensamento de tal afecto. Quero sentir, para esquecer daquelas palavras que me enlouqueceram minha alma. Aquele toque francês de pronúncia incoerente para o local. O homem aproxima-se de mim envolto num lençol branco, purificado de esmalte. Trazia na sua mão esquerda um triângulo de um metal que desconheço, pintado de cor negro. Em cada ponta encontrava-se uma esfera que se movia constantemente; deveria ser devido a um campo magnético. Notava-se uma onda de forças que se prolongava em volta da mão. Todo a energia da sala ficou no objecto. Do branco lençol escorria água que desaguava em cada esfera, caindo em gotas pelo ar até bater forte no chão. Um estrondo que fazia os meus tímpanos explodir. Campainhas alternadas de melodias poderosas e sufocantes.
Em cada gota que brotava via-se o tempo alternar. A luz a incidir, a trespassa-las numa plumagem a levitar no meio. Há sempre aquele fenómeno de observar para além do canto do olho. Aquele horizonte que nos cega e nos faz pensar que somos meros pedaços do pensamento. São mesmos arrepios de prazer. Gotas de corvos. As gotas passaram para fios espessos, como cordas dum violino. Desejava tocar, produzir um som, interromper a descida abrupta da água. Pegar nas flexíveis lâminas de aço e rasgar meus dedos, até ouvir o desprendimento da vida. A água deixa de bater no chão, deixa-se de ouvir o estrondo. Calmamente aproxima-se do meu corpo. Deposito meu corpo no alongamento da madeira sobre a mesa. Ele faz escorrer pelo meu peito quente, a ferver. Ouve-se o fumegar da água. No meio disto tudo tenho uma sensação estranha. Cada um dos lençóis de água não tem o mesmo sabor. Uma mistura estranha, tanto em temperatura, como em intensidade. Não consigo distingui-las com precisão; só sei as sensações que me transmitem; uma de certa pureza, raiva, ódio, suavidade, desinteresse, extravagância... Mas todas tem uma coisa em comum: tem o poder de caminharem para o vazio, para dentro de mim, passarem-me de um lado a outro, sem perguntarem, nem responder, se tem ou não, permissão para abrirem tal tesouro. Entram e varrem o que não é delas. Olham e não entendem o que não vos pertence. É como se quisessem saquear o trago da sensibilidade. Gotas de corvos que salpicam minha alma e moldaram o espectro do destino. Fico com a água retida no meu umbigo, enquanto vejo o homem esvanecer nos seus mantos puros por entre cortinas ao fundo da sala. Sugo o elixir como se fosse a seiva que pudesse abastecer e reanimar meu espírito. O líquido percorre o interior do meu ser, a explorar cada semente do caule, das folhas, das raízes... Não chega a ir a um lugar, dificilmente atingiria tal sedimento. Levanto-me energético, numa força desmesurada. Saí dali sem ver mais nada, nem os vinis me prendem o olhar. Apenas uma coisa me passa pela mente: a piranha. Seguro o cortinado da entrada e retalho a piranha que devora a mão. Talvez a mão precisa de ser dividida em pequenas porções. É obvio que eu não tenho poder de fazer de uma mão várias identidades pessoais. Vários dedos, se eu fosse uma piranha...Deixo este tecido no meu bolso. Caminho, fujo, pela ruela que me trouxe a este desassossego. Nem o odor do tabaco passa pelas minhas narinas. Só o líquido está encerrado dentro de mim, só resta afastar-me daquele lugar. Reter as emoções na sua essência.
A noite já vai longa. Toda a escuridão contida no mar estelar. As luzes da cidade estão apagadas, parece que tudo veio para ser meu. Continuo a correr sem destino, com o corpo a transpirar de desejos, de olhar para uma janela. Sei que a janela que ambiciono se encontrará retida entre espinhos, entre barras invisíveis, entre muralhas de gelo que só se fundem com um toque de fada. Avisto ao longe um recinto que se encontre no meio de um gradeamento de madeira, rodeado de árvores altas, traços ocos. Aproximo-me da minha prisão. Meu ser fica surpreso mas de tão cansado que está não repara que a janela que procuro se encontra presente naquelas masmorras. Sem dúvida que está fora. Como poderia estar dentro a janela da minha salvação, das cortinas verdes?...Caio redondo num dos cantos da prisão. Sinto-me esgotado. A força de fechar os olhos junto as raízes da vida é mais forte que o meu desejo. Tenho que fazer uma coisa. Não posso adormecer sem o fazer. Não posso. Tenho que o fazer. Armo meus cabelos em torno de um tronco, enlaço minhas veias no embrião, prendo o caminho na armadilha. Tudo isto para quê? – pergunto-me eu. Somente para acordar virado para a janela. Tanto esforço para provavelmente acordar virado para alegoria. Moldar o quadro de olhos fechados, do menosprezo da cegueira.
Adormecerei aqui bem – penso eu. Sempre faz sentido dormir com as estrelas como manto, o chão como fogo e as árvores a acariciarem meu hálito. Aquele hálito de ventanias que sopram mas cansa logo, por não terem quem os alimenta. Uma reserva interior poderá levar a suster o último sopro do dragão. Não deixa de ser válido que o alimento provém do âmago. Tudo se cerra nos cadeados ferrugentos, num corpo em que os rasgos do tempo fazem-se ouvir.
Pareço uma múmia embrulhada nos pelos sedentos da menina que fecha as minhas pálpebras. Uma aparição; talvez seja isso. Vindo do nada sinto as mãos pequenas, feições peludas, parecendo um homem. Umas mãos sem forma delimitada, assemelhando-se a escamas de baleia. Escamas ásperas de retratos transparentes, o oco que vinha dentro dela. Nem o olhar escapava. Sempre se diz que o olhar não engana; o dela revelava uma árvore velha, a apodrecer em troncos despidos. O sorriso algo medroso queria tentar dizer-me que o toque era sincero. Mas não, que ingenuidade do meu ser poderia pensar que aquelas escamas peludas, sedentas de fragilidade, poderiam arrebatar minha alma e possui-la como se dum animal se tratasse. Uma fugitiva daquele momento austero. Mas ela continuava a segurara-me a mão com firmeza, não a largando, colando cada parte do seu corpo imundo a minha pele. De pé ao meu ouvido segreda palavras desconexas, desprovidas de qualquer significado. Dizendo que as escamas que ela tinha eram feitas do mais puro cordel do mar. Tentava persuadir-me com o seu penteado solto, cabeça arredonda de futilidades. Era tudo irracional. Quando se sente que a primeira carícia é como o vento que não chega a bater na face, não se pode inspirar o desejo de continuar a estar atado à árvore. O toque insistente percorria as minhas ossadas. Fui um erro meu por os meus elos à volta da raiz do tronco. São como os vampiros que querem sugar. Ela não se afigura a tal divindade. Os vampiros sabem como agir, ela não. Apenas tem a configuração de uma palmilha deserta de ideias, numa banalidade que nem o canto da sereia consegue tornear o hálito fedorento. Continua a mirar-me com olhos senis. De frente, de trás, de lado, ou de outra qualquer postura, tudo tem a mesma risada total. Não percebo porque aquela menina vestida de anjo veio até mim. Vestida de anjo com roupas sem variedade de tonalidades, sem harmonia. Uma máscara na cara para tentar tapar a podridão do calor da sua decomposição.
Nem as mãos delas me atraem. Eu gosto de mãos. Sempre gostei. São as mãos que executam as nossas tarefas, são elas que dão beleza ao nosso coração, são elas que fazem de nós o que somos. Observar um delineamento de mãos suaves, que sabem penetrar em mim com doçura, que tocam como penas. Uns arbustos que crescem para o alto e se aninham nas perfurações salientes do inferno que me consome. Feitas para encaixar, feitas para escorregar. A isso chamo mãos.
Vinha acompanhada de outra pessoa. Pelo aspecto tinha ar de ser sua mãe. Pedi licença para lhe tocar nas mãos para poder ver a diferença, mas não precisava do fazer. Via-se de imediato que o antigo tem mais sapiência. Insisti para confirmar o óbvio. Mel a rebolar por entre meus dedos, até as rugas eram divinas. As veias de alto e baixo figuravam, davam um ar de juvenil. Ao contrário das escamas da filha que apenas mostrava que precisava de saber o que queria (acho que nunca saberá). Tocar por tocar pertence aos levianos. Aposto que a mãe da menina concordaria comigo. Sinto isso.
Elas penetram o olhar uma na outra numa contradição extrema. Existe pureza naquele confronto. Querem-me possuir com a uma brandura a derreter. Nota-se plenamente que há algo em comum além dos laços sanguíneos. Os traços obesos obedecem a um rigor diferente. Foram molestadas nos rasgos da insanidade. O corredor de longas facas afiadas, na devastação de momentos, nas formas perdidas e que jamais se construirão. Queimam-se com a pele, apesar da menina pedir misericórdia pelos flagelos que provocou. Ou será a mãe? Que tipo de flagelos?...Interrogo a mãe na mão que se encontra pousada no meu cálice:
- Porque amas o teu marido?
A resposta vem em salpicos de lágrimas que perfuram minha pele. Provavelmente será devido ao odor que ainda permanece da filha. Sente-se ao longe que não foram feitas para serem uma da outra. Tanto menosprezo, tanto ódio, tanta raiva, tanto vácuo...relembro-me duma frase que li: “Quem mata o tempo não é assassino: é suicida.” Talvez não se aplique nesta situação mas é claro que o tempo não existe para nenhuma delas. Tudo se transforma em amor se houver na profundidade do abismo uma agitação, uma paixão de reencontrar o caminho, uma vontade de viver... A solidão existe naqueles rostos e a procura do básico passou a ser o essencial. Um elixir sem o verdadeiro sentido da plumagem dos corvos.
A noite vai longa e nós três no meio daquela prisão torna-se fustigante. Penso que será melhor deixar aquelas duas almas na sua deriva, quando de repente, uma voz vinda do fundo, junto da janela de cortinas verdes fura a monotonia. Uma voz de homem, algo desunida nos seus vocábulos, aproxima-se da sensaboria. Dos poucos neurónios que ainda tenho, penso: cara pálida como um quadro codificado de notas. Aquela personagem lavra os caminhos dos rostos desconhecidos. Um pseudo. Eu chamo pseudo às pessoas que estão descontextualizadas do seu ambiente natural. São meros pescadores, cujo único factor que pode interferir é de usar uma cana de pesca com um comprimento razoável para num cartório se registar como caçador de vara curta. Torna-se difícil de ver as diferenças entre um pescador e um caçador. Se calhar deve ser da forma pouca astuta que tocam de leve o seu objecto de ostentação.
Ele chega lá e começa a sentir que o seu território está em perigo. Sente-se assustado. Pressinto que existe um enjaulamento por parte da menina. Acabo por não perceber quem é o caçador, nem o caçado. Também não me importa; só sei que aquele mar morto está demasiado monótono. A mãe aconchega os restos daquelas duas almas depenadas. De um momento para outro, eles largam bruscamente o colo de quem por carinho, numa meiguice terna os foram buscar e libertam-se da prisão fugindo daí, escoam pela colina abaixo até ao rio. Sozinha ela comigo fica. Abraço-a, sinto-a como da mulher do jardim que encontrei antes de ir para o bar. A mulher contorce-se em mim como de um filho se tratasse. Sinto-a afogar-se pelos salpicos da pergunta que lhe fiz. Apanho cada lágrima que lhe corre pelas rugas abaixo, seguro cada uma delas como de uma pérola fosse.
Num corredor de fugas deixo-me levar. Lavado em banho de emoções. Sou um recluso do pensamento, de sentimentos; penso nos voos, penso nas lágrimas, penso que existo para ver as fissuras dos desmembramentos. Verdade seja dita, o aconchego daquele corpo faz-me lembrar que as águas são puras quando brotam de fontes imaculadas. Meus seios transbordam, meu corpo inunda-se de prazer, minha alma enche-se da vastidão de rios, como se tudo isso fizesse com que a vida tenha sentido. Talvez até tenha. Talvez. Um sopro vazio de escuridão, um sopro sedutor de mulher...A vastidão daqueles membros numa ternura cativante, num ombro a ferver, num gelo rasgado. As linhas de fogo que a lavram faz-me reflectir que todos nascemos de alguém, damo-nos a alguém, por isso cada gota de orvalho é escorrida com um sabor diferente. Da mãe natureza desagua a esperança, um leite adocicado de virtudes.
A manhã acordou e com tantas coisas que a minha pele saboreou, nem tive oportunidade de descansar as pálpebras. Fiquei outra vez sozinho a olhar o amanhecer. Um som forte percorre meu vento interior numa malga de recordações. Um esvoaçar de torrentes, em cada ímpeto, em assaltos infernais. Gira na roda viva das árvores, que enlouquecem, com a energia que mora nas grutas alicerçadas pelos recalcamentos. O meu ser passeia nesta prisão onde não pára de vasculhar os contornos das peugadas. Sempre a surpresa, em cada canto, mesmo nas masmorras do recanto. Avisto uma fonte num escaninho daquela penumbra. Encontra-se no local fugidio dos olhos, mas não dos ouvidos. O som prega-se num fragmento de mel dos meus lábios. Estranhar o paladar que se entranha pela boca adentro sem ter a oportunidade de saborear com a gema da retina. Vertigem do fascínio de olhar pelas folhas que cobrem a fonte. Aproximo-me da mistura de folhas secas e verdes que se confundem num cruzamento formoso. Abro o celeiro que apenas os ouvidos tinham o prazer de se maravilharem. Ela ainda se encontra um bocado distante das folhas que acabei de separar com os dedos. Ao fundo num pequeno declive a fonte brota a água da juventude. À volta, nos contornos, está rodeado de pedras lisas, umas saídas em relação a outras a formar um murro. Cujo a configuração se assemelha a uma hipérbole, com seu centro na fonte. Trilho a distância, rasgo a vegetação num sufoco rude. A minha paciência está dilacerada, quero lá chegar rapidamente. No meio do cálice onde uma fenda regula as veias, ergue-se duas mãos juntas, entrelaçadas. Não se chegam a tocar mas envolvem-se numa sedução poderosa. A água que ouvia penetra as mãos vindas de uma máscara, duma escultura dum homem de barbas. Ainda pensei à primeira vista que ela saia da boca mas não. Saia do centro da testa. Os lábios mal se viam, eram demasiados finos. Sua boca semiaberta fez-me lembrar um homem em que lhe disseram as seguintes palavras: ” Tu acende-lo e um dia ele te apagará”. Palavras sábias que não se esquecem. Se alguma vez for possível esquecer o relevo da sabedoria os homens deixam de existir. Avizinho-me da escultura de mãos, meto-me dentro do cálice, as enguias fazem amor, sustenho meus lábios entre eles para derramar o mel. Minha língua suavemente passa pelo meio dos dedos da fria rocha. Cola forte, corta a separação da pele, acolho a carícia. Num abraço forte de mãos junto as minhas...
Ouço o chamar dos corvos no meio da minha pele. A água penetra com ardor, sufocando pedaços da eternidade. No intrometer da rocha as silhuetas do tempo vagueiam em contornos de sossego. Tudo com a exaltação contida do refúgio. Continuo a tocar em maresia a imensidão das mãos, sem aperceber que consigo com a minha alma uma grandeza maior que um momento de calor da folha a cair pelos ombros abaixo. Deixo as mãos imóveis escorregar pelo meu peito hirto, sedoso de perfume da aragem, cálido do hálito do homem de barbas que me olha com ar de sedução. Sinto o gemer da natureza, sinto os poros a molharem-se de mel, sinto a morte ganhar vida, sinto o sanguíneo desejo violento de explodir...sinto apenas. Coloco minha perna na tranquilidade da abertura das mãos, roço-o suavemente em melodias de ângulos salientes. Deixo meu corpo cair, para meus longos cabelos descobrirem a transposição da doçura do quebrar, de cada fragmento enevoar as ligações do sagrado. Brando sacrifício, refogo o tempero do prolongamento do meu eco. É a repercussão da minha imagem espelhada na ideia de outrora que tudo faz parte do mesmo ser. Cada pedaço de mim naquela água, naquelas mãos, naquela ansiedade de ser possuído, fica ofuscado a retenção momentânea. Faço amor com a natureza numa pura movimentação de sons rítmicos. Os gemidos voam por dentro dos troncos, escapam-se na plumagem das folhas, as raízes ganham forças para se revoltarem ao seu aprisionamento, as barbas pecam no restolho da água, a voz delicada dos pássaros aconchega as rochas, tudo em volta acciona o contínuo tocar do violino.
Falta qualquer coisa para este momento ser perfeito. Porventura mais que uma mas nesta migalha de tempo só essa basta. Não queria que fosse de manhã, fosse de noite, noite de lua cheia. Sou uma besta, um arpão encravado em mim poderia pensar que poderia ter isso, mas eu não. O manto frio da leveza picante do tornear do horizonte leva-me a cobiçar, o meigo inferno, os anjos prolongados no ventre, a lua a transpirar na concavidade do destino...hum!!! Fecho os olhos, quero sentir essa sensação por dentro das minhas veias, a porção do tempo que falta para cobrir o véu disfarçado. Olhos muito envidraçados, partidos, cortados, encontram-se em voos. Morrer o medo calcado na frincha, como a gruta sem mão tacteasse os perfis nus. A paciência que embirra na calma da levitação, no menosprezo do culto de sorrir em solidão. Vejo a tela a escorrer pedras de sal, enlameado, tangente aos pólos do círculo transparente. Transpiro no lado interior de mim, numa mistura de líquidos que se consomem, que devoro a lua que se encontra no meu pensamento. Numa brisa breve as folhas que sentia cair pelos ombros, juntam-se em meu redor, cobrem o fragmento de mim. Sinto folhas secas que esbatem, que chilreiam nas suas nervuras transversalmente aos meus braços. São sedimentos de matéria na pureza de encontros: a lua, as folhas, a água, as mãos...Uma infinidade de sensações na fúnebre construção da ruína. Até as pedras desalinhadas moldam trajectos tortuosos.
Retiro minha roupa molhada, as folhas que me cobriam deixam-se espalhar pelo ar, pela água. Até algumas são levadas pelo vento para fora do meu domínio. Deixo-me cair junto a parede do cálice e sinto o demónio feito em asas de cordão, enrolado num toque melindrado da espuma azul do céu. Fico nu no relaxante paladar daquele lugar. Não pertenço a água, nunca pertencerei. Sou fogo que arde sem destino, sem chama, com as mãos feitas em sangue de olvidar a arma do cronómetro da vida. Retenho-me bruscamente no calor interior, olhando para longe, olhando para a lua de prata, olhando para os corvos que esquecidos se encontram presentes. O aroma do mel, de carne espalmada, de olhares que buscam as virtudes, da perfeição da purificação, do sangue azul, de poemas retidos na memória, de tudo o que faz manter firme o destino, continuarei deitado...
Passam os dias por mim, no meio destas colinas, nas formas saliente de pedras, em cima do pedestal...Caminho sem fim, para fora, para dentro dum espaço que possa vislumbrar cada silhueta do ninho dos corvos. Saio a pé pelo meu próprio esforço, a moer cada trilho por debaixo de pesado sons. Sons a martelarem a melodia, num compasso, numa paixão de lágrimas, percorro sem fim à vista. Sinto cada vez mais longe o meu ser, pelo menos fisicamente. São túmulos à esquerda, sempre à esquerda, à esquerda de todos os parâmetros visíveis. Túmulos de leveza, das folhas dispersas, de curtas trajectórias, de longos desvios, de margens que olham com admiração por tanto carinho, caminham. Já derramado de tanto caminhar fico estagnado num vale. De um lado observo os verdejantes ramos de pinhos com pingos de lírios roxos, do outro lado areia. Areia tão fina que banho os meus pés nesse sufoco. Não posso escolher os lírios, não me pertencem. Há flores que foram feitas nos aromas de Deuses, nas linhas curvas de fios escassos, que não se podem tocar pela fragilidade externa que demonstram. Açúcar de pedaços entre a pele que aninham com prazer. Dá para pensar neste sossego todo, nesta mistura de cores. Afinal tenho que regressar. Recuperar energia, ou ir buscar outro tipo de energia, repousar a alma e concentrar a reflexão, só me vai fazer bem.
O tempo já passou, o tempo passa, a areia cairá e o solo sairá...
2 comments:
Não sei bem como (e nem porquê) vim aqui parar mas...ainda bem que vim.
Acho que, de tudo o que já li teu, nada me deu tanto prazer como este conto; é soberbo, as imagens são magníficas e a descrição deliciosamente delirante.
Adorei.
Obrigada
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